sexta-feira, 20 de julho de 2012

Anamara


Anamara



           
            Anamara olhou no relógio. Melhor, não estava atrasada. Partia de novo para mais um dia de trabalho. Escolheu uma roupa ao acaso. Olhou no espelho. Bem não estava, mal também não.
            Se fosse pelo menos caixa. Podia ficar sentada. Mas sendo atendente de balcão. De pé o dia inteiro, tinha que optar pelo conforto. Sapatos baixos era a pedida. Não tinha pra onde correr. Ainda que saltos altos fossem muito melhores. Acrescentavam-lhe alguns centímetros que a natureza encarregara-se  de lhe subtrair. Tanto fazia. “É nos menores frascos que estavam os melhores perfumes.” A avó não cansava de dizer. Ainda que a avó fosse alta e esguia, mas Anamara puxara a família do pai. Pequena, torneada, por pouco não seria “cheinha”, como costumavam dizer as tias, que há muito já estavam bem mais que cheias.
            O cabelo era liso, negro, comprido. Era o que lhe dava maior graça. “Cabelo de neném”. Como costumara dizer a antiga amiga de colégio, Marina.
            Anamara não gostava que lhe chamassem de neném. Era pequena, sim. Mas tinha garra. Ia vencer na vida.  Aceitara o emprego de balconista. Mas era por pouco tempo. Logo se tornaria caixa e mais pra frente, gerência! Quem sabe? Não nascera para ficar estagnada na vida.
            Não gostava do serviço de balconista. Não tinha paciência com os clientes. Ficava quieta, não respondia. “O cliente sempre tem razão.” Dizia o chefe. Mas isto não era coisa pra ela. Pensava em coisas maiores.
            Era melhor ir, se não quisesse chegar atrasada. O patrão não gostava de atrasos. Ela não gostava de fazer coisas erradas. Caminhou pela rua. Mais um dia de trabalho. 
            Ela apressou o passo. Não que estivesse muito atrasada, mas havia somente um ônibus no ponto. Não queria esperar. Detestava esperar.
            “Já era. “ Pensou. O motorista já havia se sentado ao volante. Não correria. Era melhor desistir. E se fosse ele? O rapaz bonito? Se fosse ele, talvez a esperasse. Era melhor apressar o passo.
            O ônibus ainda não havia partido. Devia ser ele. De outro modo, já teria partido. Mas então, o ônibus foi ligado. Era melhor correr. Ele não partia, mas ligava o ônibus. Parecia que gostava de vê-la correr para alcançá-lo. Se tivesse alguma consideração, não faria isso. Mas se esperava, era porque gostava que ela viajasse com ele.
            Chegou à porta do ônibus. Sim era ele.
            _ Posso entrar?_ Perguntou Anamara.
            Que pergunta era aquela? Claro que podia! Se o ônibus estava de porta aberta era porque podia entrar. Mas estava quase partindo. Tinha medo de entrar num ônibus em movimento.
            _ Bom dia. _ Ela disse.
            Fazia isso com todos. Sempre que entrava em um ônibus, cumprimentava trocadores e motoristas. A mãe lhe ensinara que era feio tratar com pessoas sem lhes cumprimentar. Via pessoas entrarem nos ônibus, darem o dinheiro e receber o troco sem ao menos olhar para o cobrador ou motorista. Anamara achava aquilo muito triste. “Falta de civilidade”. Diria a avó.
            _ Bom dia. _ O moço bonito também respondeu.
            Anamara colocou o cartão no leitor. Ainda não se acostumara muito com aquilo. Tentou passar e a roleta não cedeu. Que vergonha! Tinha que se enrolar logo perto dele? Teria que pegar o dinheiro na bolsa.
            _ Acho que não passou, não, ném! _ Ele disse.
            Ném. Espantou-se Anamara. Ném era diminutivo de neném. Ela não era neném. Nunca gostara de ser chamada assim. Era pequena, mas era forte e decidida. Mas ele lhe chamara de ném. Ela, ném? Teve vontade de rir. Não combinava com ela.
            Mas ele lhe chamara de ném. E nunca ném lhe soara tão doce.   
            Sentou-se perto da porta, como sempre fazia, e desta vez, sentar-se perto da porta era sentar-se perto dele. Era bonito, sim. E a chamara de ném. Tratamento carinhoso, ela bem sabia.
            Chegou ao trabalho mais feliz, de bem com a vida. Sorriu para as clientes mais implicantes. Era assim. Ele tinha o dom de colorir sua vida. De deixá-la de bom humor. Não se importava de ser ném, não pra ele. Ele a chamara de ném e ela não se importara. Tudo bem, ele podia.



FIM

Nenhum comentário:

Postar um comentário